Não existe Paraíso sem Água

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Não existe Paraíso sem Água

Há sensivelmente um ano escrevi um artigo sobre o impacto da Energia Nuclear Francesa no Sistema Energético Espanhol e a sua inlfuência significativa nos preços Spot (OMIE) da Península Ibérica e noutros países vizinhos. Esta crise nuclear, que explodiu no segundo semestre de 2016, causou uma subida de preços da eletricidade e do gás natural a valores historicamente exorbitantes, afetando não só França como todos os países que quem partilha fronteira.

O pesadelo vivido no inverno passado foi potenciado por um conjunto de infortuúnios:

  • Crise nuclear em França, que afetou parte da sua capacidade de geração de energia, responsável por suprimir parte do consumo interno, bem como parte da energia que é exportada;
  • Temperaturas extremamente baixas que causaram um aumento da procura de gás natural e eletricidade para aquecimento;
  • Um inverno seco com poucos períodos de chuva;
  • Aumento dos preços do petróleo devido ao acordo de corte de produção mundial estabelecido entre membros e não-membros da OPEC;
  • Tendência altista dos preços do carvão devido à aplicação de forma drástica de novas políticas ambientais na China para reduzir e controlar as emissões de CO2;
  • Cortes no gasoduto Argelino que liga a África ao Sul da Europa – principal fornecedor de gás natural da Península Ibérica.

Por sorte, a Primavera trouxe as temperaturas amenas e mais agradáveis reduzindo a necessidade energética Europeia e permitindo alguma margem ao parque nuclear Francês para recuperar das várias paragens não programadas, oferencendo a esperança de uma descida de preços durante o resto do ano.

Figura 1 – Evolução do Preço Spot Espanhol 2016 vs 2017. Fonte: MTECH

 

Estamos agora em Novembro e a média anual situa-se nos 51.12 €/MWh, um dos preços mais altos alguma vez registados no mercado SPOT.

De acordo com várias notícias e opiniões de analistas, 2017 está principalmente a ser afetado por três fatores-chave:

  1. A atual situação nuclear em França que afeta diretamente os níveis de importação e exportação de energia de/para Espanha;
  2. A pouca participação das centrais hídricas no mix energético devido aos níveis baixos das reservas de água;
  3. O preço do carvão.

Mas qual deles é o mais relevante?

A Energia Nuclear e as importações como um buffer?

França é capaz de suprimir 75% das suas necessidades energéticas internas usando somente energia nuclear devido aos 63 GW de capacidade instalada. Espanha e, por consequência, Portugal beneficiam desta fonte de energia francesa importando electricidade diariamente, de forma a evitarem picos nos preços Spot Peninsulares. Como é possível observar na figura 2 que, desde o segundo semestre de 2016 que os preços OMIE são mais baixos sempre que se registam bons valores de importação de energia de França, principalmente comparando em períodos que Espanha se torna exportador de energia. Apesar de maiores níveis de importação não siginificarem forçosamente preços mais baixos, é possível afirmar que a importação serve como um tampão que evita que os preços de eletricidade subam. No entanto, o mesmo raciocínio não se pode aplicar aos primeiros seis meses de 2016. Isto deve-se ao facto de este período, Espanha ter registado bons níveis de disponibilidade renovável (eólica e hídrica).

Figura 2 – Evolução Mensal das Importações e Exportações Espanha-França (GWh). Fonte: ESIOS & Magnus

Wake up call para o carvão

Figura 3 – Evolução do preço do carvão API2. Fonte: MTECH

O setor do carvão sofreu bastante entre 2014 e 2016 com o preço do carvão API2 a chegar aos 38 dólares por tonelada levando a crer que a Era do combustível mais poluente do planeta estava perto do fim. Mas em 2016 tudo mudou, ou melhor dizendo, a China mudou (a sua política energética e ambiental) e a recuperação do carvão chegou aos 87 $/tonelada em menos de 2 anos.

A crise nuclear em França forçou vários países a queimar carvão e gás natural para produzir energia suficiente para consumo interno e ainda para fornecer parte a França durante o pico do Inverno passado. Situação que se pensava ser pontual mas que dura até aos dias de hoje.

Figura 4 – Impacto do carvão na Evolução do Preço SPOT Espanhol. Fonte: OMIE & MTECH

Cruzando as médias mensais dos Preços SPOT com a participação do carvão no mix energético Espanhol é mais que óbvio que um menor uso desse combustível fóssil correponde a menores preços de eletricidade e que uma maior participação implica um aumento no preço OMIE. MAS, o preço do carvão parece não afetar diretamente o preço OMIE como é possível observar nos verões apresentados na Figura 4, onde mesmo havendo diferenças significativas nos preços do carvão, foram consumidos os mesmos volumes não havendo um registo de grandes variações no preço OMIE.

Que chova Por Favor!!

A Península Ibérica está a enfrentar uma das maiores secas da história, com Espanha a precisar de recuar 20 anos para reviver situação semelhante e Portugal 87 (SIM, 87!). Esta situação catastrófica tem impedido a participação das centrais hídricas no mix energético aos mesmos níveis que os registados nos últimos anos (2015-2016).

Figura 5 – Nível de reservas de água em Espanha. Fonte: Embalses.net

Em Espanha, a capacidade hidroelétrica pode gerar entre 5 a 7 GWh, o que representa 20-30% do mix. No entanto, estes valores ótimos de geração só ocorrem se as barragens se encontram com bons níveis de água, acima dos 400 000 hm3. A Figura 6 mostra a evolução da participação das hídricas em Espanha e o seu impacto nos preços OMIE.

Figura 6 – Impacto da produção hídrica nos preços SPOT Espanhol. Fonte: OMIE & Magnus

É possível afirmar que a evolução da curva dos preços SPOT segue o volume de participação das hidroelétricas no mix energético. Os preços mais baixos correspondem exatamente aos meses onde a contribuição das hídricas foi maior. Esta situação é causada pelo “hueco térmico” (buraco térmico) que corresponde à quantidade de energia necessária que precisa de ser fornecida através de combustíveis fósseis depois de toda a energia renovável disponível estar alocada.

Se está a pensar que o mesmo padrão acontece no caso do carvão, está a pensar bem, mas isso é facilmente explicado pelo facto que as centrais a carvão são a primeira tecnologia de substituição. No entanto, recordemos que o preço do carvão não influencia diretamente, ou pelo menos de forma significativa, o preço final da eletricidade. Assim sendo qual é o principal fator?

As Centrais Hídricas como price-makers

A energia hídrica é uma fonte de renovável e como as outras tecnologias do género, deveria contribuir para a descida do preço da eletricidade. No entando, não é exatamente o que se verifica, ou, não da melhor forma possível.

Como já se explicou num artigo sobre o Mercado SPOT, o preço OMIE é o resultado de várias sessões de cassação de preço entre a oferta e  a procura correspondendo a várias horas do dia. Em termos de lógica de mercado, as tecnologias renováveis deveriam ser as primeiras a vender os seus volumes a preços mais baixos, deixando a restante necessidade energética para as Térmicas que queimam gás e carvão para produzir eletricidade, que têm um custo de produção mais elevados e contribuem para o aumento do preço final da eletrcidade.

Observando as Figuras 7, 8 e 9 constáta-se que o que está a acontecer em Espanhan não corresponde ao esperado.

O Gráfico 7 mostra que o preço de 45% das horas de 2016 foi marcado pelas tecnologias hídricas (37% pelas centrais com sistemas de bombagem e 11% sem esse sistema) e em termos de intervalo de preço, as hidroelétricas marcaram 65% das horas mais caras do ano passado.

É possível defender que tal cenário é aceitável em 2016 uma vez que foi um bom ano hidrológico com bons níveis de reservas permitindo às grandes companhias elétricas produzirem energia livremente através das suas barragens. Além disso, os ótimos níveis de participação de outras tecnologias de origem renovável, permitiram que estas fontes marcassem os preços em horas fora dos períodos de ponta.

Analisemos agora o ano de 2017 olhando para as Figuras 8 e 9. Uma vez mais, o cenário parece repetir-se com as hidroelétricas a serem responsáveis por marcar 47% das horas entre Janeiro e Outubro, 47%! E como bem se lembram, estamos a enfrentar um dos piores períodos de seca da história! Portanto, existe MUITO menos água nos nossos rios e nas nossas barragens, mas continuamos a ter esta tecnologia a marcar preços e a um ritmo superior ao do ano passado.

Figura 7 – Horas que cada tecnologia por intervalo de preço de cassação no Mercado Spot 2016. Fonte: OMIE & Magnus Commodities

Figura 8 – Horas de cada tecnologia por intervalo de preço de cassação no Mercado Spot 2017. Fonte: OMIE & Magnus Commodities

Analisando os intervalos de preços, a média atual do preço Spot Espanhol para 2017 situa-se em 51.21 €/MWh e observando o gráfico 9, podemos ver que 66% das horas dos preços acima do atual valor do mercado Spot são marcadas pelas tecnologias hídricas, registando também alguma participação por parte do gás natural.

Figura 9 – Distribuição das tecnologias que marcaram o preço de cassação do Mercado Spot 2017. Fonte: OMIE & Magnus Commodities

Mais questões que ficam no ar

Respondendo à questão inicial deste artigo, as centrais hídricas são inquestionavelmente o principal driver do preço do Mercado Spot em Espanha, conclusão que suscitam algumas dúvidas acerca da forma como esta fonte de energia RENOVÁVEL está a ser gerida pelas Grandes Empresas do Setor. É também interessante o que se tem testemunhado relativamente à participação desta fonte de energia no mix energético dada a atual crise de seca que se vive na Península Ibérica. Espanha está sobredimensionada em termos de capacidade de geração de energia e possui alternativas viáveis às centrais hídricas tais como centrais de ciclo combinado, assim sendo, porquê usar água? Estará relacionado com temas ambientais? Então e as restrições no abastecimento de água que já se estão a aplicar em várias regiões do centro do Espanha? E o que fazer quanto à seca extrema do rio Douro e dos seus afluentes?

Em termos de cassação de preços, e além da questão óbvia de como pode um preço de eletricidade ascender os 100 €/MWh nos dias de hoje, quando os preços das commodities energéticas necessárias para a produção de eletricidade estão algo pressionadas em alta mas não em valores extremamente caros (exceto o carvão), devemos questionar como podem as tecnologias hídricas definir os preços em níveis tão elevados?

A oportunidade de mercado é realmente atraente para os detentores das centrais hídricas que (permitam-me dizê-lo) são os mesmos detentores das centrais a carvão e a gás natural, mas por outro lado, poderão estar a antecipar à possível situação catastrófica de uma seca prolongada que se possa extender para la deste inverno? Estarão estas centrais a compensar financeiramente um possível censário onde não podrão participar devido a uma real ausência de água?

Não descartando os outros fatores analisados neste artigo, (a capacidade nuclear Francesa e a atual participação do carvão), é impreterível que chova e esperemos que neve bastante durante esta temporada para encher barragens para a próxima Primavera, caso contrário o cenário actual e a questão dos preços terá pouca probabilidade de descida, a não ser que…

Jorge Seabra | Energy Consultant

 

By | 2018-06-12T15:39:38+00:00 Novembro 22nd, 2017|Categories: Featured (pt), MBlog|Tags: , , |Comentários fechados em Não existe Paraíso sem Água