Go Solar Portugal: Sistemas de Autoconsumo

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Go Solar Portugal: Sistemas de Autoconsumo

Num país como Portugal onde o Sol brilha entre 2 200 a 3 000 horas por ano, a possibilidade de produzir a nossa própria energia através da radiação solar é uma grande oportunidade para ajudar o meio ambiente e para reduzir as nossas faturas de energia.

A partir de Janeiro de 2015, esta oportunidade passou a ser uma realidade, através da publicação do Decreto-Lei DL nº153/2014, a 20 de Outubro de 2014. Este novo decreto veio permitir ao consumidor final a possibilidade de ser simultaneamente, produtor e consumidor da sua própria energia, bastando para tal, instalar um sistema (de fonte renovável ou não) de autoconsumo na sua casa. Antes desta data, os sistemas de produção descentralizada de energia, também denominados de micro e mini geração, eram concebidos com a finalidade de injetar (e vender) a totalidade da energia gerada à rede nacional.

O consumidor evoluiu para PROssumidor a partir do momento em que passa a estar capacitado de produzir, consumir e, em alguns casos, vender a energia que é gerada na sua habitação/edifício. A nova lei veio com a premissa de ser mais uma medida de eficiência energética, uma vez que tem como principal objetivo a redução dos custos associados à energia do ponto de vista do consumidor final e não como uma melhoria na gestão da rede elétrica nacional. Este novo cenário implica que o Prossumidor passe a estar mais informado sobre o mercado elétrico e sobre o seu perfil de consumidor de energia para poder dimensionar apropriadamente o seu sistema de autoconsumo.

Diferenças entre Mini/Micro geração e o Autoconsumo

Antes de 2015 já havia a possibilidade de instalar painéis solares numa casa, num edifício ou em terrenos. Esses sistemas eram definidos como Sistemas de Mini ou Micro Geração e eram vistos mais como uma fonte de rendimento. Os projetos eram dimensionados sem respeitar os consumos dos edifícios afetos, o que significa que na sua grande maioria, os sistemas eram sobredimensionados. A principal particularidade destes sistemas residia no facto de que toda a energia produzida era vendida a um preço muito superior ao da compra e injetada diretamente na rede nacional. Os preços de venda de energia eram definidos nos contratos, consoante o investimento e o retorno do mesmo através de uma tarifa bonificada.

Por outro lado, depois de Janeiro de 2015, o autoconsumo foi criado para diminuir as importações de energia da rede, tendo como principal requisito, que a instalação suprimisse as necessidades energéticas da casa/edifício onde era instalada. Para tal era importante ter informação sobre o perfil de consumo do local em questão.

O Prossumidor passou a ter o poder de decidir se queria estar ou não ligado à rede nacional e ainda a possibilidade de instalar baterias para melhor gerir a sua produção e o seu consumo de energia. Está, no entanto, restringido de vender energia à rede, a não ser que a mesma esteja em excesso face ao seu consumo. Isto significa que não é, ou pelo menos não deveria ser possível guardar energia durante o dia para ser vendida à noite.

Neste novo âmbito existem então dois tipos de projetos de autoconsumo: um com baterias incluídas no sistema e outros sem qualquer tipo de aparato de armazenamento.

O facto de ter baterias instaladas torna-se crucial em termos de custo de projeto, mas também em termos de custos de aquisição de energia. A inexistência de baterias implica que não existe forma de gerir ou guardar qualquer eletricidade gerada que não é consumida nesse momento, impedindo o seu uso em horas de maior necessidade (normalmente de manhã e ao final do dia). Mas a existência de baterias encarece também bastante o sistema.

A aceitação desta nova forma participar ativamente no mercado de energia foi bastante bem aceite por alguns consumidores de Baixa Tensão. Para ser mais especifico, 3500 unidades de autoconsumo foram instaladas em 2015 em Portugal. Além dessas, o ano passado testemunhou uma duplicação das instalações passando para 6067. Isto em termos de potência instalada resulta em 50 393 kW.

Tirar proveito do Autoconsumo

Com base nas melhores estimativas e em alguns resultados reais já obtidos, está demonstrado que é possível reduzir a fatura de eletricidade entre 20 e 50% instalando um sistema de autoconsumo, tendo em conta o perfil de consumo e o tamanho da instalação.

Esta solução tem-se tornado bastante atrativa para os edifícios de serviços e algumas fábricas, já que as suas horas de maior consumo correspondem precisamente às horas de maior produção de energia através dos sistemas de autoconsumo fotovoltaicos, minimizando significativamente os custos associados à aquisição de energia. Existem certos casos em que se conseguem reduções efetivamente superiores a 50%.

Já no setor doméstico e residencial, o caso é bastante diferente devidos aos seus diversos padrões de consumo, mas que normalmente, registam as suas horas de maior consumo em períodos entre as primeiras horas da manhã e as últimas do dia/início da noite. Momentos, em que o sol não brilha ou brilha muito pouco.

Image 1 – Energy consumption using a self-consumption solar energy system. Decreto Lei 153/2014

 

Venda vs Armazenamento

Segundo a lei DL nº 153/2014, o dono da instalação tem a possibilidade de decidir se quer estar ligado a rede nacional ou não. Obviamente que a ligação à rede é vista como um meio de segurança para garantir que o local nunca ficará sem eletricidade. No entanto, há que frisar que a ligação de terceiros à rede é um custo fixo que tem que ser pago quer exista consumo da rede ou não. Além disso, esta ligação, implica a possibilidade de venda da energia excedentária, que atualmente está prevista na lei que toda essa energia seja comprada pela o CUR (Consumidor de Último Recurso) que atualmente é a EDP Universal.

A ligação à rede e a venda da energia são questões que supõem uma grande reflexão durante o processo de decisão. A solução de autoconsumo foi desenhada para evitar a dependência da rede elétrica e esta deverá ser usada somente em duas ocasiões:

  1. Venda da energia excedentária produzida pelo sistema e que não pode ser consumida diretamente;
  2. O consumo de energia proveniente da rede quando o sistema de autoconsumo não é suficiente para suprimir as necessidades energéticas do local.

Além do objetivo original do DL, o mesmo decreto é suficientemente ambíguo para permitir que os Prossumidors aproveitem os sistemas de autoconsumo para gerar receitas mas antes de continuar com este assunto, é importante recordar que a presente lei permite a instalação de baterias de forma a armazenar energia que não é consumida em horas de menor consumo para ser mais tarde utilizada quando as necessidades energéticas do local são mais elevadas. Foquemo-nos nos sistemas de autoconsumo solares porque é a tecnologia mais abundante e de menor previsibilidade de produção. Normalmente, o Prossumidor pode armazenar energia gerada pelo painel fotovoltaico durante o dia (altura em que o consumo energético é mais baixo) para ser consumida no período noturno. Tudo bem até agora! Este novo método poderá ajudar a rede elétrica em termos de gestão e em termos de necessidade de menos instalações de grande envergadura para produzir grandes quantidades de energia para suprimir todas as necessidades energéticas durante as horas de pico. Outro ponto a favor é o facto de, na sua grande maioria, as instalações de autoconsumo terem como fonte de energia fontes renováveis, evitando o crescimento dos níveis de emissões de CO2 (e até reduzindo os mesmos) e contribuindo para um país com maior independência de combustíveis fosseís. Ao nível dos custos, o balanço também é positivo uma vez que o payback dos investimentos ronda os 8 anos e o ciclo de vida dos painéis solares superam os 20 anos. Dando um exemplo:

Tomando como exemplo os cálculos apresentados no DL 153/2014, um exemplo de um sistema de autoconsumo com 2 kW de potência instalada numa casa com uma potência 10,35 kVA e com um consumo anual de 5,6 MWh, o investimento necessário rondaria os 5 144 € e o payback estaria a volta dos 10 anos. O resultado do caso de estudo apresentado mostra uma poupança de 480 € na fatura de energia e reduz as importações de eletricidade de 5.6 MWh para 3,5 MWh por ano. O sistema de autoconsumo fotovoltaico consegue produzir 3 044 KWh/ano, onde 70% da energia gerada é diretamente consumida no local e a restante injetada (e portanto vendida) na rede elétrica nacional.

O excesso de energia gerada é vendido à EDP SU (entidade comercializadora que atua no mercado regulado) a um custo de 90% do preço OMIE (Preço de eletricidade no mercado diário).

O exemplo mencionado acima foi retirado do documento do decreto lei, no entanto é extremamente importante informar os consumidores que cada caso deve ser estudado e analisado de forma individualizada tendo em conta uma série de fatores que devem ser identificados como:

  • Quantas pessoas vivem no local;
  • Que equipamentos existem instalados no local;
  • A localização geográfica e a sua orientação;
  • Os perfis de consumos.

Esta e outra informação deve ser reunida e analisada para dimensionar o sistema de autoconsumo mais adequado para o local em questão ou mesmo para avaliar a viabilidade do investimento.

É uma boa aposta?

Os sistemas de Autoconsumo e o novo papel do consumidor mais participativo no mercado produziram alterações interessantes e curiosas nos Mercado Energético e na forma como se faz negócio. As Smart grids já não são uma utopia, transformando-se numa realidade urgente dia após dia. Mitigar o problema das horas de pico e procurar a estabilização do sistema elétrico sem a necessidade de muitos sistemas de segurança de abastecimento como centros de produção de energia em stand-by e sem grandes infraestruturas que tem que ser implementadas e mantidas para produzir e transportar grandes quantidades de energia ao longo de grandes percursos tornar-se-ão menos necessárias. O autoconsumo, juntamente com o boom da mobilidade elétrica e de tecnologias que permitem mais transparência e segurança nos mercados, como o trendy Blockchain, irão mudar o status quo do mercado e, talvez (utopicamente) será possível chegar a um sistema elétrico livre de emissões e de combustíveis fosseis associados a geração de energia.

Voltando à situação atual, esta solução poderá também vir a ser um problema para o sistema elétrico se as leis não acompanharem este desenvolvimento ou se as mesmas não forem mais assertivas e claras. A lei atualmente em vigor afirma que o principal objetivo é a redução de custos associado ao consumo de energia, tornando os edifícios e as casas mais eficientes mas, não define qualquer mecanismo de controlo para a energia que não é consumida. Por exemplo, num local com um sistema fotovoltaico de autoconsumo onde existam baterias instaladas, o proprietário tem a possibilidade de armazenar energia durante o dia e vendê-la em horas de pico, continuando a importar as mesmas quantidades de energia da rede. Isto possibilita que, o Prossumidor, além de continuar a exigir a mesma quantidade à rede, o mesmo aproveita uma oportunidade de mercado para originar receitas. Aqui salientamos a segurança que existe para o Prossumidor em termos de venda, já que a EDP SU está obrigada a comprar toda a quantidade de energia que é colocada em mercado.

O autoconsumo e a produção descentralizada de energia constituem uma parte da solução para um futuro mais sustentável, limpo e transparente. Não existe qualquer dúvida que este tipo de aproximação atribui mais “poder” e responsabilidade ao consumidor final forçando a uma maior transparência do mercado e competitividade no mesmo.

Num futuro imediato, este caminho que se iniciou nos últimos anos mostrará resultados nos setores dos serviços e industrial onde o objetivo passa por consumir toda a energia produzida para reduzir a dependência da rede elétrica. Por outro lado, o setor doméstico poderá ver este caminho como um mix de oportunidades entre pagar menos ao comercializador atual de energia partindo da premissa que consumirá energia produzida in situ e fazer dinheiro com a venda, o que no caso deste setor (e sem a instalação de baterias) é algo bastante provável já que as horas de menor consumo correspondem às horas de maior produção.

Este é o futuro das empresas como a Google que já que a apostar e a investir forte no ramo da energia através do Google Project Roof. Esta nova plataforma combina várias ferramentas Google apresentando de forma rápida, cómodo e com algum grau de viabilidade de projetos solares de autoconsumo para uma casa. Infelizmente este serviço só está disponível nos Estados Unidos e na Alemanha, mas seguramente que não tardará muito até este produto não se estenda até países como Portugal e Espanha.

Está claro que parte da regulação deverá ser adaptada e repensada para englobar todo o potencial que existe em torno da produção descentralizada de energia, mas é importante perceber e ter plena consciência que os primeiros passos já foram dados e que o futuro se prevê bastante interessante.

 

Jorge Seabra | Energy Consultant

By | 2018-06-12T15:39:39+00:00 Maio 31st, 2017|Categories: Featured (pt), MBlog|Tags: |Comentários fechados em Go Solar Portugal: Sistemas de Autoconsumo