Estaremos a tornar-nos suficientemente “verdes”?

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Estaremos a tornar-nos suficientemente “verdes”?

No passado dia 11 de Julho, A Agência Internacional de Energia (AIE) publicou o seu relatório anual intitulado “World Energy Investment 2017” sobre as Tendências de Investimento em Energia a Nível Mundial durante o ano de 2016, revelando informação importante acerca do desempenho de cada setor energético e sobre as tendências em termos de iniciativas e desenvolvimentos.

Este relatório apresenta índices de desenvolvimento e de investimento em todas as fontes primárias de energia e em tecnologias energéticas em anos anteriores, revelando descobertas e comparando mercados energéticos, bem como expondo novas features e inovações em mercados emergentes e desenvolvidos. Estes relatórios também funcionam como uma previsão de como será o panorama de oferta e procura em termos energia no futuro, tendo como base os atuais dados de investimento e desenvolvimento, sendo estas previsões complementadas por outras projeções desenvolvidas pela AIE em outras publicações.

2016 foi um ano curioso devido aos valores baixos sem precedentes registados na maioria das Commodities energéticas e com um desempenho recorde ao nível de participação de energia renovável, com vários casos de dias inteiros com produção 100% renovável, como foram os casos de Portugal e Dinamarca. No entanto, 2016 foi também um ano com preços mínimos de crude que afetaram diretamente diversas economias baseadas no “ouro negro”, elevando a importância deste relatório para averiguar como diferentes entidades investiram perante o panorama global.

INVESTIMENTO POR SETOR ENERGÉTICO

Pelo segundo ano consecutivo, a AIE mostrou uma queda no investimento global reunindo, em 2016, uma maquia de 1.7 Biliões de dólares americanos, 12% menos que em 2015 e 15% mais baixo que o máximo alguma vez registado de 2.0 Biliões de dólares em 2014.

2016 foi um marco para o Sector da Eletricidade visto que, pela primeira vez, o investimento neste setor superou o montante investido no Setor do Petróleo e do Gás Natural (Oil & Gas), reunindo 718 mil milhões de dólares contra os 649 mil milhões investidos no setor de combustíveis fósseis. Ainda assim, é importante destacar que este marco não se deve a um maior investimento no Setor Elétrico (onde se verificou uma queda de 1% YoY) mas sim devido uma queda significativa dos investimentos no setor petrolífero causado, principalmente, pela queda acentuada dos preços do crude e do gás natural.

Não obstante, a queda no total de dinheiro investido no Setor da Eletricidade não significou menos desenvolvimento neste setor. De facto, a capacidade instalada de energia renovável a nível mundial aumentou 50% mesmo com menos investimento em tecnologias de geração renovável. Este dado representa uma forte e clara mensagem sobre a velocidade a que os custos associados ao setor das renováveis se estão a reduzir e de como a tecnologia está a melhorar, especialmente nas áreas do Fotovoltaico e da Eólica.

Figure 1- Energy investment by Sector in 2016, Source: IEA – World Energy Investment 2017

ANO DO SOLAR

O ano passado foi claramente o ano do solar fotovoltaico com tecnologias como a TrueCapture da NEXTracker, o Telhado Solar da Tesla ou projetos como Parques Solares Flutuantes que colocaram a energia solar de volta à categoria de soluções para a transição energética de baixo teor de carbono. A capacidade instalada cresceu 50% YoY graças aos 70-75 GW de nova capacidade instalada, tendo a China como líder do ranking com uma contribuição de 38 GW, seguida pelos Estados Unidos, o Japão, a EU e a Índia.

Relativamente aos contratos no âmbito de novos projetos em geração renovável, 2016 foi crucial para uma mudança nas politicas aplicadas. Quase 70 países já transitaram de uma política de tarifas bonificadas para um método de promoção de concursos competitivos com Acordos de compra de energia de longa duração (PPA em inglês), mais 50 que em 2010. Esta alteração contribuiu para contratos para projetos a preços historicamente baixos no Chile e nos EAU, onde os projetos foram adjudicados a preços abaixo dos 30 $/MWh. Na India, esta abordagem permitiu uma redução tal que os preços de aquisição de projeto baixaram para um terço dos valores registados em 2015.

APONTANDO PARA A SEGURANÇA 

Outras duas áreas que mereceram destaquem neste relatório devido ao aumento do capital investido foram as áreas das Redes e do Armazenamento devido à importância que possuem para um futuro energético livre de emissões. Aproveito para destacar que o armazenamento de energia tem sido o principal desafio para combater o uso de fontes térmicas devido à intermitência da energia solar e eólica (artigo interessante sobre armazenamento aqui).

Foi o ano de sensações mistas para as tecnologias de armazenamento. Por um lado, as baterias de iões de lítio posicionaram-se na dianteira como a principal fonte de armazenamento de tecnologia devido a uma redução significativa dos custos associados e ao aumento da capacidade de produção em larga escala. Por outro, a quantidade de nova capacidade instalada decresceu comparando com 2015, já que somente foram cumpridos 500 MW de 1 GW previsto para 2016. Vale a pena frisar os desenvolvimentos adquiridos no setor das baterias principalmente com a nova abordagem das baterias de casa, com a Powerwall da Tesla a liderar esta tendência de armazenamento “behind-the-meter”, mercado este que ultrapassou os mil milhões de dólares em 2016. Previsões apontam para que este mercado cresça dos atuais 100 MW instalados até aos 3.8 GW até 2025, residindo aqui o importante movimento registado em 2016 ao nível dos fundos que apostaram por investir na aquisição de várias start-ups dedicadas ao desenvolvimento de tecnologias de nova geração nesta área.

Relativamente às Redes de transporte e distribuição, esta área foi coroada como rainha do investimento em 2016 com a China, uma vez mais, na liderança arrecadando 30% de todo o investimento nesta área para desenvolver infraestruturas de transmissão de larga escala e também em melhorias nas redes de distribuição. Outro “boom” identificado teve lugar na Índia e no Sudeste Asiático onde os projetos de eletrificação cresceram rapidamente e abarcando 13% do investimento aplicado nesta área. Na Europa e nos E.U.A. o dinheiro foi investido para modernização de linhas de transmissão mais antigas e em novas linhas de distribuição. Um dos objetivos fulcrais para um mercado mais sustentável e flexível passa por mudar de um sistema de entrega de energia unilateral para uma plataforma plurilateral integrada onde o “data” e serviços serão imprescindíveis.

O Acordo de Paris parece ter produzido um impacto importante em termos de consciencialização ambiental (ou pelo menos quero acreditar nisso), já que a capacidade mundial de centrais de carvão diminuiu em 20 GW e as emissões de CO2 estagnaram pelo terceiro ano consecutivo segundo o estudo publicado também pela AIE no início do ano. No entanto, o carvão continua a contribuir para 40% do mix energético mundial e pouco foi feito em termos de politicas e iniciativas governamentais para alterar a situação atual. Além disso, temos sido testemunhas de que, especialmente na Europa, o carvão voltou a participar fortemente na geração de energia, sendo utilizado como substituto da hidráulica. Em Espanha, por exemplo, a participação do carvão cresceu 10% na primeira metade de 2017, comparado com o mesmo período do ano anterior, produzindo 12 TWh de energia (ver Fig. 2).

Figure 2 – Energy Mix Evolution Spain – 1st half, Source: Magnus – REE

MOBILIDADE ELÉCTRICA A CAMINHO

750 000 veículos elétricos (EV daqui em diante) foram vendidos no ano passado, representando um aumento em mais de um terço relativamente ao ano de 2015 confirmando a nova mentalidade em termos de mobilidade. Como TOP de vendas temos a empresa chinesa BYD, a Americana Tesla (claro) e a Alemã BMW, que duplicou o seu volume de vendas de um ano para o outro.

Ainda assim, o crescimento registado na indústria EV parece ser insuficiente para combater o consumo de petróleo, uma vez que, segundo o relatório publicado, o impacto destes 750 000 veículos contribuem para uma redução de 0.02% do consumo global de petróleo.

Alguns especialistas do setor acreditam que os veículos domésticos constituem uma pequena parte da solução e que os esforços devem ser feitos em infraestruturas de carregamento e no desenvolvimento de soluções competitivas ao nível dos veículos pesados de transporte de passageiros e de cargas. O mais recente relatório da AIE sobre EVs (relatório aqui) afirma que 345 000 dos 750 000 EVs vendidos em 2016 eram autocarros movidos exclusivamente a energia elétrica, mostrando claras intenções de aspirar a um futuro mais “verde”. Shenzhen, por exemplo, tem o objetivo de que toda a sua frota de autocarros seja 100% elétrica em 2017. A União Europeia também demonstrou alguns esforços com a aquisição de mais de 1 200 autocarros elétricos.

O transporte de mercadorias é um assunto mais complicado e ainda está à procura de uma solução viável, sendo, por agora os modelos híbridos a melhor solução disponível como o caso do Volvo Concept Truck, lançado em Maio de 2016. Mas a Mercedes e a Tesla estão numa luta renhida para ver quem apresentará o primeiro camião totalmente elétrico. Esta primeira linha de autocarros terão uma autonomia de 200 km e serão usados em âmbitos urbanos/ regionais. Ou seja, os camiões de longas distâncias ainda terão que esperar mais algum tempo.

Quanto ao verdadeiro impacto do aumento de veículos elétricos em circulação está ainda por quantificar e avaliar, tendo em conta que é certo que as emissões diretamente associadas à mobilidade poderão reduzir-se, já que estamos a substituir diretamente motores de combustão por elétricos, mas há que ter em conta o carregamento das baterias que possibilitarão a mobilidade elétrica, aumentando os desafios no lado do abastecimento de energia.

A presença de EVs na rede elétrica terá consequências a vários níveis: ao nível do mercado de geração onde uma maior procura em momentos de menor disponibilidade poderá aumentar os preços da eletricidade; ao nível da transmissão, um aumento da imprevisibilidade em termos de injeção/consumo de energia na/da rede elétrica necessitando maior controlo de frequência e uma maior necessidade manter e gerir a garantia de potência; finalmente ao nível da distribuição, maior congestão poderá causar cortes de fornecimento e acelerar a deterioração das redes a nível local.

Neste sentido, a adoção de padrões de comportamento terá um papel fundamental para adaptar e escolher os melhores e mais apropriados sistemas de carregamentos que devem ser implantados de forma a mitigar dentro do possível o impacto dos carregamentos dos EVs na rede elétrica.

No ano passado, o crescimento de pontos de carregamento acompanhou o crescimento do número de veículos elétricos, atingindo um numero de 320 000 unidades instaladas, 75% mais que em 2015. O sucesso da mobilidade elétrica é uma consequência dos múltiplos benefícios que os EVs poderão proporcionar aos governos e aos cidadãos em termos de segurança de abastecimento, qualidade de ar em zonas urbanas, mitigação de ruído e redução de gases de efeito de estufa.

A mobilidade elétrica é finalmente uma realidade e a revolução ainda agora começou. Segundo as previsões, em 2020 haverão entre 9 a 20 milhões de veículos elétricos em circulação, cifras que aumentarão para 40 a 70 milhões até 2025.

MENOS PODE SIGNIFICAR MAIS

O investimento global foi mais baixo que em 2015, mas mercados importantes como o das energias renováveis, eficiência energética e os veículos elétricos cresceram em 2016, percorrendo um caminho oposto aos dos combustíveis fósseis que viram os investimentos nos seus setores diminuírem. Esta nova realidade pode significar que os governos e o Mundo em geral está a mudar em direção a um planeta mais sustentável e limpo, procurando sempre oportunidades competitivas. Um menor investimento, neste caso, pode significar que os custos associados às tecnologias estão a reduzir-se drasticamente e que novas tecnologias e abordagens estão a ser implementadas a preços competitivos e com bons níveis de aceitação.

Em termos de políticas, o Acordo de Paris, o EVI e outas iniciativas globais que apontam para uma economia de baixo carbono estão a causar um grande impacto ao nível das politicas globais e locais, mas existe ainda muito que deve ser feito e melhorado. Alguns governos têm que ser mais ambiciosos e outros têm que deixar de oferecer resistência perante a mudança, já que ainda temos tempo de deixar um mundo mais sustentável para as gerações vindouras.

Jorge Seabra | Energy Consultant

By | 2018-06-12T15:39:38+00:00 Julho 26th, 2017|Categories: Featured (pt), MBlog|Tags: , , , |Comentários fechados em Estaremos a tornar-nos suficientemente “verdes”?