A descarbonização na Península e o “empurrãozinho” dos mercados

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A descarbonização na Península e o “empurrãozinho” dos mercados

O caminho para a neutralidade climática até 2050 continua e a descarbonização constitui umas das principais medidas para alcançar esse objetivo em toda a Europa.

Em 2020, a Áustria e a Suécia passaram a produzir a sua eletricidade completamente livre de energia proveniente da queima de carvão. O roadmap oficial prevê que a França avance para a descarbonização total em 2022, seguido de Portugal previsto para 2023.

Já em 2025, o Reino Unido, a Itália e a Irlanda devem juntar-se aos 13 países livres de carvão no seu mix. No entanto, os países da Península Ibérica estão bem posicionados para antecipar as datas definidas.

Espanha

Como previsto, a 30 de Junho Espanha passará a ter apenas 5 das 14 centrais de carvão a funcionar (devido ao COVID-19 esta situação poderia sofrer ligeiras alterações de prazos). No fim de 2021, apenas 3 deverão estar ainda ligadas à rede, uma vez que a Endesa encerrará Almeria e As Pontes.

As 3 centrais a carvão que permanecerão operacionais são Los Barrios da Viesgo e duas centrais que pertencem à EDP localizadas nas Astúrias (Aboño e Soto de Ribera).

Figura 1 – Centrais de carvão em Espanha. Fonte: LaVoz / REE

No entanto, a Viesgo surpreendeu o país ao anunciar o encerramento antecipado de Los Barrios, localizada em Cádis no presente mês de Junho devido a fortes perdas de competitividade no mercado maiorista. De facto, a participação desta central tem sido residual nos últimos 12 meses.

A perda de receitas levou a que a Viesgo reavaliasse o futuro deste ativo e, ao encerrar a central, poderia receber fundos da U.E. injetados neste sector para a descarbonização gradual.

O encerramento das 9 centrais a carvão previstas para este mês está relacionado com o facto de estes ativos não cumprirem com as normas ambientais da União Europeia e, como os proprietários das mesmas decidiram não investir em medidas de melhoria, as mesmas não podem funcionar a partir de 1 de Julho de 2020.

A Endesa, apesar dos investimentos realizados nalgumas centrais, para cumprir as normas da U.E. e continuar a operar no sistema nacional além de 2020, decidiu informar que também encerraria todos os seus ativos em território continental (Litoral e As Pontes) até 2021, devido às perdas registadas em 2019 e às expectativas pessimistas relativamente a rentabilidade do carvão nos mercados energéticos.

O carvão tem mantido uma clara tendência Bearish há mais de um ano, caindo progressivamente desde o seu pico registado em Outubro de 2018 perto dos 100 USD$/tonelada.

Apesar da tendência de queda do carvão, a forte subida  dos preços do carbono (EUAs) desde 2018 e a sua consolidação em 2019, quando os preços atingiram os 30€/tonelada, (uma subida 4 de vezes em 18 meses)  acabaram por prejudicar o uso das centrais a carvão, uma vez que o custo excessivo que estas centrais tinham de pagar devido às emissões de carvão queimado comparado com o custo das centrais a gás começou a ser demasiado elevado, dando a oportunidade aos ciclos combinados a aumentar a sua participação no mix energético.

Além do CO2, a procura de carvão foi também significativamente afetada pela queda dos preços do gás natural e a um mercado sobre abastecido causado por vários fatores, tais como a queda das importações pela Ásia, um Inverno suave e uma maior disponibilidade de GNL.

Figura 2 – Evolução dos preços do carvão API2, TTF e CO2 Y+1. Fonte: MTECH

Em Espanha e em toda a Europa, a procura de carvão diminuiu significativamente em 2019 e ainda mais em 2020, este último período fortemente prejudicado pelo recente surto de covid-19.

No Reino Unido, os dados apontavam para mais de 90 dias sem produção de carvão e em Espanha a participação deste combustível fóssil caiu quase 10% entre 2018 e 2019 e atualmente contribui para apenas 3% de toda a energia gerada desde o início de 2020.

Figura 3 – Participação do Carvão no Mix Energético Espanhol (%). Fonte: OMIE / REE

Portugal

Do outro lado da fronteira, o plano para as duas centrais a carvão ativas em Portugal prevê o encerramento da Central do Pego até 2021 e a de Sines até 2023, no entanto, conversações sobre uma possível antecipação da data de Sines têm vindo a aumentar.

De acordo com os dados da REN publicados no passado mês de Maio, desde o dia 14 de Março, Portugal não está a gerar energia através queima de carvão e, segundo os mesmos dados, a central de Sines não tem contribuído para o mix energético nacional desde finais de Janeiro.

A queda do carvão no cabaz energético português foi de 10% entre 2019 e a sua contribuição nos primeiros 5 meses do ano foi inferior a 1%, sendo essa participação registada somente em Janeiro.

Figura 4 – Participação do Carvão no Mix – Energético Português (%). Fonte: OMIE / REE

O governo já afirmou que estão a ser feitas algumas avaliações sobre a viabilidade de encerrar a central de Sines antes da data prevista, mas existem alguns aspetos importantes a ter em conta antes de avançar com o encerramento definitivo, nomeadamente, a segurança do fornecimento e o futuro desse ponto de conexão à rede.

As centrais a gás conseguiram compensar a ausência de participação do carvão e o aumento dos projetos de energias renováveis estão igualmente a contribuir para um futuro sem carvão.

Futuro não tão brilhante

Com todos os projetos renováveis previstos para os próximos meses e o impacto económico da pandemia COVID-19 que ainda está por se refletir no consumo energético peninsular, as perspetivas de gerar receitas através de uma central a carvão na Península Ibérica parecem ser desanimadoras. Ainda mais com as tendências do mercado do gás natural que continuam a apontar para os preços abaixo dos 15 €/MWh que, juntamente com os elevados custos dos direitos de Emissão de CO2, manterão o carvão fora do mercado contra as centrais de ciclo combinado e de cogeração.

Figura 5 – TTF Preços Futuros. Fonte: MTECH

Isto poderá acelerar a decisão da EDP de forçar o encerramento antecipado das suas centrais de carvão em Espanha e em Portugal antes de 2022, ultrapassando a França nos seus planos de eliminação progressiva do carvão.

Apesar dos evidentes benefícios ambientais da descarbonização e apesar dos recentes dados que apontam para esta possibilidade, garantir a segurança do fornecimento e a estabilidade dos preços são aspectos-chave que devem ser considerados.

Jorge Seabra | Energy Consultant

By | 2020-06-18T10:51:18+00:00 Junho 18th, 2020|Categories: Featured (pt)|Tags: , , |Comentários fechados em A descarbonização na Península e o “empurrãozinho” dos mercados